Segunda-feira, Novembro 30, 2009
Vendas de Bíblia crescem 25% em 2009, diz editora Vozes
A editora Vozes registrou um crescimento de 25% nas vendas de Bíblia em 2009 e prevê um aumento de 15% no ano que vem. A oferta de modelos personalizados do livro sagrado cristão é uma das razões desse desempenho positivo em um ano de crise econômica mundial.
Também contribuiu para o avanço da Bíblia nas livrarias uma redução dos preços. Segundo a Vozes, a personalização é uma das tendências que ganham força no mercado.
Também pipocam títulos com abordagens específicas sobre a obra mais vendida do mundo. Há textos como "O Que a Bíblia Realmente Diz sobre Homossexualidade", "A Violência na Bíblia", "Mulheres da Bíblia" e "Bíblia para crianças".
"A Bíblia é vendida em todas as classes, faixa etária, gênero. No meio urbano, pelo acesso, há um número mais significativo de compra. O que há de comum nos compradores da Bíblia é sua aproximação com a espiritualidade e a fé", informou a Vozes à Livraria da Folha.
Com a proximidade do Natal, as vendas de Bíblia esquentam, aproveitando o sentido religioso da data do nascimento de Jesus. Um dos lançamentos é "A Bíblia - guia ilustrado das escrituras sagradas", escritor por J.R. Porter, professor emérito de teologia na Universidade de Exeter, no Reino Unido. O seu principal diferencial é ser ricamente ilustrado ao apresentar as histórias mais importantes da Bíblia, sua simbologia, personagens e os estudos sobre o contexto histórico e social em que as narrativas foram escritas.
Questionada se títulos baseados em passagens bíblicas, como "Caim" e "Manual da Paixão Solitária", ajudam a despertar o interesse pela leitura do livro sagrado, a Vozes responde: "Nossa avaliação é que não tem grande influência. O que traz novos leitores da bíblia são processos de busca mais duradouros."
Sábado, Novembro 28, 2009
Verdade absoluta?
Que tipo de líderes e liderados nós somos?
Terça-feira, Novembro 24, 2009
Correspondência científica roubada abre polêmica sobre mudança climática
Computadores da Universidade East Anglia, no Reino Unido, foram invadidos e mais de mil e-mails e 3 mil documentos trocados entre cientistas do clima foram roubados, abrindo polêmica no mundo acadêmico a poucas semanas da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP 15), em Copenhague.
O material, que revelaria uma suposta manipulação de dados para reforçar a tese do aquecimento global, está sendo usado por céticos para alertar que a necessidade de corte de emissões de CO2 não passaria de uma farsa planetária. Cientistas afirmam que o roubo faz parte de uma campanha para evitar um acordo climático.
Muitos dos e-mails roubados foram trocados entre cientistas que participaram do relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) .
O documento, de 2007, foi o primeiro a confirmar que o aquecimento global é resultado da atividade humana. Phil Jones, que teve e-mails roubados, diz que palavras como "truque" e "esconder a queda" foram usadas fora de contexto pelos hackers.
Mas a polêmica já virou debate político. Lord Lawson, cético da mudança climática, pediu investigação e disse que a credibilidade da ciência está em jogo. O secretário-geral da Organização Mundial de Meteorologia (WMO, na sigla em inglês), Michel Jarraud, rejeitou a tese. "É lamentável que ainda traga impacto um rumor como esse."
Nota: Creio que o meio ambiente tem sido visivelmente afetado pela ação do homem e isso é inegável. Por outro lado, a possibilidade de manipulação a respeito da tese do aquecimento global abre realmente a discussão não apenas sobre a credibilidade científica. Mas, se for comprovada alguma manipulação de informações em torno do aquecimento global, a quem interessaria isso? E digo mais: por que alguém ou "alguéns" teriam interesse em difundir a ideia de um aquecimento global inevitável, rápido e destruidor do mundo que conhecemos?
A sensação no mundo, pós-tese do aquecimento global, é exatamente aquela que filmes como 2012 e outros mais antigos tentam estabelecer: a de fragilidade humana diante das tragédias naturais. E, por trás disso, o que seria a solução? Mais consciência ambiental? Sim, mas uma ação unificada de governos, religiões e sociedade civil organizada tem sido oferecida como a solução eficaz para esse fim inevitável. Só que Deus fica fora dessa solução. A solução, nesta concepção, está unicamente nas mãos humanas, independente de Deus. Mas a Bíblia fala que, conforme o sonho de Nabucodonosor (registrado em Daniel 2), a história deste mundo será encerrada não por reinos poderosos, mas "pela pedra cortada não por mãos". Isto é, o Reino de Deus.
Segunda-feira, Novembro 23, 2009
Artigo Deus e a eutanásia
Nesta edição de Época, publiquei uma reportagem sobre o cotidiano de Odele Souza e sua filha Flavia, em coma há 12 anos, desde que seu cabelo foi sugado pelo ralo da piscina do condomínio onde viviam, em São Paulo. Há três anos, Odele criou uma voz para sua filha condenada ao silêncio. No blog flaviavivendoemcoma, ela denuncia o perigo dos ralos de piscina e sua frustração com a Justiça brasileira. Ao conhecer o blog, o que mais me fascinou foi a narrativa do dia-a-dia destas duas mulheres, ligadas uma a outra pela duração de uma existência. Quem quiser, pode ler a reportagem Saudades de sua voz.
Ao acompanhar a rotina de Odele, fui surpreendida por alguns emails que ela recebe, a partir da exposição no blog. Histórias como a dela e de sua filha mexem com medos e convicções profundas de todos nós. Flavia vive à margem da vida, como diz Odele. Mas vive. Ainda que não se saiba se tem algum nível de percepção do que se passa ao redor dela. E ainda que, tanto na Filosofia quanto no Direito, possamos discutir o que faz de uma vida uma vida.
Não posso afirmar o que eu faria se vivesse a tragédia que Odele viveu – e vive – com sua filha. Possivelmente, o mesmo que ela. Só posso dizer que gostaria de ter a coragem e o desprendimento de cuidar tão bem da minha filha como ela cuida da dela. Há certas coisas que só sabemos vivendo. Podemos no máximo especular.
Se um dia eu estiver na situação de Flavia, gostaria de morrer. Como a legislação brasileira não permite a eutanásia, já pensei em várias maneiras de garantir o direito de encerrar minha vida se um dia estiver num coma irreversível, assim como estudo alguma forma de absolver meus familiares da responsabilidade de realizar meu desejo. Esta é uma decisão que não deveria precisar ser tomada por ninguém que ama, embora também possa ser um ato de amor, coragem e cuidado.
Ou seja. Se estivesse no lugar da mãe, faria o mesmo que Odele faz: tentaria cuidar da minha filha da melhor forma possível enquanto ela respirasse. Se estivesse no lugar da filha, preferiria ter outro destino. Entendo que o exercício do amor e do cuidado pode conter as duas possibilidades.
Minha convicção mais profunda é a de que quem vive uma situação como essa – e só quem vive – tem o direito de decidir o que é melhor para si – ou para quem ama e não pode mais responder por si. Ninguém mais: nem os amigos, nem o padre ou o pastor, nem o médico, nem a Lei, nem o Estado. Esta é uma decisão da ordem do privado. E como tal deveria ser respeitada, seja ela qual for.
O que me deixou estarrecida, ao ter acesso à parte da correspondência de Odele, é como existem pessoas que têm certeza sobre o que é melhor para Odele e sua filha, Flavia. Estas pessoas não têm dúvidas, só certezas absolutas. Elas não vivem a experiência sobre a qual disparam sentenças, mas sabem o que é melhor para quem vive. Têm todas as respostas, sempre.
Veja dois exemplos, que Odele me autorizou a publicar:
A primeira oferta é de uma mulher que se identifica como uma crente. Ela oferece um milagre. Bastaria levar Flavia à sua igreja que ela despertaria do coma. Em nenhum momento ela pensa no que um milagre não realizado causaria em Odele. A mulher não vacila. Para ela, Flavia voltar de um coma considerado irreversível pela Medicina é apenas uma questão de fé.1) “Eu lhe falava sobre Deus e lhe falava que havia visto muitas curas na igreja onde estou congregando. Na última vez que estive lá, pensei muito em você e na Flavia, pois uma jovem havia sido trazida de volta do coma pelo poder de Deus, pelo poder da fé dos familiares. A justiça dos homens, infelizmente, é tardia, mas a de Deus, jamais. (....) Basta que você confie, sou mãe como você também”.
2) “Dona Odele, por favor: sente-se confortavelmente, mantenha sua coluna ereta, feche os olhos, respire fundo e solte o ar aos poucos. Procure não pensar em nada, a não ser na possibilidade de a sra. estar no lugar de sua filhinha. Com tudo o que a sra. tem observado em Flavia, procure vivenciar se fosse com a sra. Pergunto: Qual seria a sua atitude, desprovida de apego, para com Flavia?. (...) Flavia se transformou em seu sentido de vida, em sua razão de ser. Suspeito que, em suas fantasias, se ela se for, a sra. não sobreviveria à ausência física de sua filha. Em outras palavras, a sra. está vivendo um estado de simbiose assimétrica com sua Flavia. Assimétrica, pois a sra. está viva e lúcida e sua filha somente tem vida vegetativa. Isto não me parece justo. (...) Mas qual seria, a meu ver, seu grande ato de generosidade? Eu respondo: Deixar sua filha partir deste mundo de dor, sofrimento, doença, velhice e morte. Não estou propondo homicídio. Deixe a evolução da moléstia de sua filha tomar seu curso natural. (...) Para o bem de sua filha, e de seu espírito, a sra. receberia grande Luz, se, por exemplo, deixasse de virá-la de posição de 15 em 15 segundos ou de hora em hora, que seja”.
No texto de seu email, fica subentendido que, caso Flavia não desperte, a causa seria a suposta falta de fé da mãe. Afinal, a autora havia visto uma menina voltar do coma “pelo poder de Deus, pelo poder da fé dos familiares”. Como ela diz, “basta que você confie”. Podemos supor que, pelo seu raciocínio, todas as tragédias não revertidas acontecem por falta de fé de quem as vive. Este raciocínio me parece muito cruel: se uma tragédia não foi revertida é porque a vítima – ou, no caso sua mãe – não teve fé suficiente. É ela a culpada, em última instância.
A segunda não chega a ser uma oferta. É mais uma tentativa de persuasão – ou de adesão à certeza do autor. Também com base numa suposta caridade, ainda que não a cristã, este homem convida Odele a se colocar no lugar da filha. Ele parte da premissa de que Odele, que cuida de sua filha 24 horas por dia há 12 anos, nunca o tenha feito. Nunca tenha pensado milhares de vezes no que sua filha pode estar sentindo, nunca tenha se colocado no lugar da filha até ele lhe oferecer esse conselho iluminado.
Ele afirma, sem sequer um lampejo de dúvida, que o melhor para Flavia é a eutanásia – ou ortotanásia, como diz em outro ponto. Na parte transcrita do seu email, o que me choca é a arrogância com que ele descreve o que Odele deve fazer para se colocar no lugar da filha. Ele, um estranho, tem a ousadia de dizer a uma mãe, por meio de um email, que seu maior ato de amor seria não virar a filha de lado, para que “a natureza possa fazer a sua parte”.
Esse nível de certeza sobre a vida do outro me soa assustador. Parece-me que as relações humanas, todas elas, se beneficiariam muito da dúvida. E do exercício, sempre saudável, de vestir a pele do outro. Sem, porém, perder o senso de que, por mais perto que consigamos chegar, não estamos nem estaremos naquela pele. E estar, de fato, é diferente de se imaginar nela.
Se ambos os missivistas, uma religiosa, o outro partidário da eutanásia, por um momento tivessem se colocado na pele de Odele, talvez escrevessem com mais humildade – e humanidade. Ou simplesmente se calassem. Ambos têm direito à sua convicção. Seu direito acaba, porém, ao desrespeitar o direito de Odele de ter a sua, mesmo que seja diferente das deles.
A certeza de que a verdade pessoal deve valer para todos é um comportamento corriqueiro. Todos nós sofremos, cotidianamente, com o excesso de certezas dos que nos rodeiam, suspensos alguns metros do chão pelo volume de suas verdades absolutas. A lógica, me parece, é a de que, se alguém conseguir impor sua verdade, não precisará nunca questioná-la. Embutido nesse comportamento, além do desrespeito ao outro, à surdez ao outro, parece estar o terror de ser assaltado por uma dúvida, ainda que bem pequena.
Neste caso, Odele recusou – com educação, mas também com firmeza – as duas alternativas apresentadas para tirar sua filha do coma: o milagre e a eutanásia. Veja os trechos a seguir:
1) O que disse a religiosa no email seguinte:
“Oi, Odele, peço desculpas, mas a sua falta de educação e sua prepotência são tão grandes que só Deus para ter misericórdia de sua vida... ninguém está pregando religião, minha querida, eu estava apenas falando sobre Deus, um Deus que pode curar sua filha porque ela NÃO está morta como a filha de Glória Perez. Mas, infelizmente, apesar de você escrever que tem um amor tão grande pela sua filha, sinceramente acho duvidoso. Uma mãe procura formas de ajudar a quem ama e não discriminar e desistir e esperar apenas a justiça do homem. Muitos ímpios não sofrerão nesta terra. O que falta na sua vida é Deus, um Deus grandioso. Não use de prepotência no problema de sua filha, porque sinceramente é isso que você está fazendo”.
2) O que disse o partidário da eutanásia em outro trecho:
Ao terem suas “ofertas” de algum modo recusadas, ambos sentem-se no direito de desrespeitar e julgar a decisão de Odele. Não são eles os prepotentes, mas ela, ao recusar a generosidade que lhe oferecem com tanto desapego. Ambos lançam mão do mesmo golpe baixíssimo: ao discordar deles, Odele prova que não ama a filha. Não “verdadeiramente”. No primeiro caso, por que ela recusa o milagre do Deus verdadeiro. No segundo, por que recusa a eutanásia.“O que seria o melhor para Flavia? (...) Um paciente em coma, só mantendo vida vegetal, precisa ser regado diariamente várias vezes por dia, senão a plantinha se vai. Como médico, imagino os cuidados intensivos que a sra. deve dedicar à sua filhinha para mantê-la ‘viva’. Coloco entre aspas, pois sua humanidade já se perdeu. Com todo o respeito que esta situação nos obriga a dignificar, eu lhe pergunto: Dona Odele, a sra. a mantém nesta condição, por ela – que se tivesse consciência certamente sentir-se-ia constrangida de assim ser vista por todos – ou pelo seu apego a este corpo material? Não seria melhor mantê-la viva somente em sua própria consciência? O exemplo que a sra está dando é de nobreza duvidosa. Seria isso um verdadeiro amor? Dona Odele, eu sou espiritualista (não-espírita) e não confesso nenhuma religião determinada. Pense no espírito de sua filha aprisionado numa gaiola vegetal. Não seria mais justo e despojado, tanto para sua filha quanto para a sra., libertá-lo?
Desconfio muito das pessoas enormemente caridosas que, neste momento, a enaltecem, lhe dão prêmio internacional, e por aí vai. Talvez seja apenas uma forma de elas jactarem-se de sua capacidade de compaixão. Suspeito também que a sra. corre o risco de deixar-se envolver por este halo de santidade”.
De novo, vale a pena tentar vestir a pele de Odele ao ler emails como estes. Como se não bastasse a brutalidade de conviver com uma filha em coma, num cotidiano onde nenhuma resposta é fácil, pelo seu computador entram pessoas que nunca a viram, nem à sua filha, mas sabem o que ela sente, conhecem o seu amor (ou a falta dele, como a acusam), e têm certeza – reparem bem, certeza – sobre o que ela deve fazer da sua vida e da vida da sua filha.
Ao ler esta correspondência, me chamou a atenção ainda outro fato: como duas posições diferentes sobre o coma, a princípio antagônicas, a da religião e a da eutanásia, se unem pelo que podem ter em comum: a intolerância. É claro que nem a maioria dos religiosos nem a maioria dos defensores da eutanásia seriam capazes de tal demonstração de desrespeito com a dor – e com a decisão – de Odele. Ou pelo menos espero que não. Mas é curioso como partidários de teses opostas podem ser mais semelhantes que diferentes na intolerância, na certeza de que a sua escolha não é apenas a única possível, mas a única certa.
Cada um sabe da sua dor. Respeitar a escolha do outro, ainda que vá contra a nossa crença, é um ato de amor, de respeito e de dignidade. Parece-me até que se ama melhor quando somos capazes de aceitar que o objeto do nosso amor tome decisões diferentes das que gostaríamos. Discordar, e ainda assim aceitar, é bem mais difícil do que apenas concordar.
Da mesma forma, ao contrário do que tantos pregam, é o número de dúvidas – e não o de certezas – que dão a dimensão da sabedoria de alguém. Todo o conhecimento humano foi construído a partir de pontos de interrogação, não de exclamação. Muito menos de pontos finais.
É fácil detectar o autoritarismo e o desrespeito na correspondência enviada à Odele. São tão evidentes quanto um anúncio em neón. Na nossa vida cotidiana, porém, nem sempre é tão fácil perceber quando saímos por aí disparando nossas certezas como uma metralhadora giratória e infalível. Desde que Odele me presenteou com a confiança do acesso a estes emails, que compartilho aqui nesta coluna, aumentei o número de vezes por dia em que duvido das certezas. Das minhas e das alheias.
Não custa nada – e poupa muita dor a nós e aos outros – parar por um minuto antes de disparar um veredicto. São apenas quatro letras:
- Será?
Nota: Escrevi um e-mail para a jornalista e o que disse foi "Eliane. Bom dia.
Costume ler algumas de suas crônicas e me chamou a atenção este artigo. Concordo com sua avaliação de que as pessoas precisam respeitar a opinião das outras, especialmente a dor e o sofrimento alheio. Realmente só quem vive um drama pessoal desta natureza é que entende o que esta senhora passa.
Ao mesmo tempo, na minha concepção, a fé em Deus é algo muito pessoal e que depende de um contato íntimo. Não é algo que alguém pode determinar para os outros. Mas acredito em Deus e no Seu poder de curar, ajudar, consolar as pessoas e ajudá-las em todos os momentos, independente do que aconteça com elas. E esta fé genuína é capaz de fazer com que uma pessoa, inclusive, suporte esta situação. Um abraço".
Segunda-feira, Novembro 02, 2009
Veja traz matéria de capa sobre fim do mundo em 2012
O escritor Patrick Geryl tem 54 anos, escreveu uma dezena de livros, nunca se casou, não tem filhos e atualmente anda muito ocupado preparando-se para o fim do mundo. Na semana passada, esteve em Sierra Nevada, no sul da Espanha, acompanhando uma equipe de televisão do Canadá, numa vistoria às habitações que estão sendo construídas ali. São ocas de cimento capazes de resistir ao cataclismo que, acredita Geryl, destruirá o planeta Terra no dia 21 de dezembro de 2012. "Queremos um lugar a uns 2 000 metros acima do nível do mar", explica. Ele e seu grupo pretendem levar 5 000 pessoas para um local que resistirá aos horrores do apocalipse. Será o último dia do resto da humanidade, acredita Geryl, um dia para o qual ele se prepara desde a adolescência, quando, aos 14 anos, na histórica cidade belga de Antuérpia, começou a se interessar pelo assunto lendo livros de astronomia. Ao voltar da Espanha, Geryl ocupou-se em relacionar os itens que devem ser levados para o bunker antiapocalipse. Na lista coletiva, havia 348, faltando ainda incluir os medicamentos. Na de uso individual, 86.
O ano de 2012 tornou-se o centro de gravidade do fim do mundo por uma confluência de achados proféticos. Primeiro, surgiu a tese de que a Terra será destruída com a volta do planeta Nibiru em 2012. Depois, veio à tona que o calendário dos maias, uma das esplêndidas civilizações da América Central pré-colombiana, acaba em 21 dezembro de 2012, sugerindo que se os maias, tão entendidos em astronomia, encerraram as contas dos dias e das noites nessa data é porque depois dela não haverá mais o que contar. Posteriormente, apareceram os eternos intérpretes de Nostradamus e, em seguida, vieram os especialistas em mirabolâncias geológicas e astronômicas com um vasto cardápio de catástrofes: reversão do campo magnético da Terra, mudança no eixo de rotação do planeta, devastadora tempestade solar e derradeiro alinhamento planetário em que a Terra ficará no centro da Via Láctea – tudo em 2012 ou em 21 de dezembro de 2012.O restante da reportagem pode ser lido na edição desta semana da Revista Veja.
Nota: Infelizmente mais uma vez a Bíblia é distorcida, já que nada tem a ver com essas marcações de datas pirotécnicas que chamam a atenção mais para o marcador do que para qualquer outra coisa. É verdade que até mesmo o movimento adventista teve uma data em que sinceros cristãos chegaram a entender que Jesus voltaria, mas com base em uma interpretação profética com um engano em relação a um dos aspectos. Não se pode comparar, no entanto, com essa marcação de data para 2012 sem fundamentação alguma: bíblica ou científica. Claro que a situação do mundo anda de mal a pior em termos morais, ambientais, econômicos, etc, mas Jesus disse, conforme registro nos evangelhos, que "o dia e a hora ninguém sabe", referindo-se ao Seu retorno. É preciso muito cuidado com essa abordagem sensacionalista.
Quarta-feira, Outubro 28, 2009
Papa relativiza método histórico-científico de interpretação da Bíblia
Agência Zenit, 26.10.2009.
O método histórico-crítico de pesquisa da Escritura é legítimo e necessário, mas deve ser interpretado segundo sua chave, que é a fé da Igreja, considera Bento XVI.
"Se a exegese pretende ser também teologia, deve reconhecer que, sem a fé da Igreja, a Bíblia permanece como um livro selado: a Tradição não fecha o acesso à Escritura, e sim o abre."
Assim explicou o Bispo de Roma nesta segunda-feira aos professores e alunos do Pontifício Instituto Bíblico, instituição fundada em 1909 por São Pio X, dirigida pela Companhia de Jesus, ao recebê-los hoje no Vaticano por ocasião das celebrações do centenário.
O Papa aludiu ao longo debate sobre o método histórico-crítico de pesquisa da Escritura, que pretende investigar o significado dos textos bíblicos através do contexto histórico e da mentalidade da época, aplicando as ciências modernas.
Bento XVI explicou que o Concílio Vaticano II já esclareceu, na constituição dogmática Dei Verbum, "a legitimidade e a necessidade do método histórico-crítico", que "conduziria a três elementos essenciais: a atenção aos gêneros literários, o estudo do contexto histórico e o exame do que se costuma chamar de Sitz im Leben".
Ao mesmo tempo, "o documento conciliar mantém firme ao mesmo tempo o caráter teológico da exegese, indicando os pontos de força do método teológico na interpretação do texto".
"O fundamento sobre o qual repousa a compreensão teológica da Bíblia é a unidade da Escritura", o que implica na "compreensão dos textos individuais a partir do conjunto", explicou o Papa.
"Sendo a Escritura uma só coisa a partir do único povo de Deus, que foi seu portador através da história, em consequência, ler a Escritura como unidade significa lê-la a partir da Igreja como do seu lugar vital e considerar a fé da Igreja como a verdadeira chave de interpretação", acrescentou.
Recordou também que quem tem "a palavra decisiva" na interpretação da Escritura é "a Igreja, em seus organismos institucionais".
"É a Igreja, de fato, a quem se confiou o ofício de interpretar autenticamente a Palavra de Deus escrita e transmitida, exercendo sua autoridade no nome de Jesus Cristo", afirmou.
Nota: Não sou teólogo, mas um pesquisador da Bíblia Sagrada, da história antiga e contemporânea, arqueologia, etc. Mas, como grifei em itálico, estas são duas frases que me chamam a atenção nesta reportagem da Agência Zenit. De acordo com o texto acima, a palavra decisiva na interpretação da Bíblia é a da Igreja (entendam que aqui se refere à Igreja Católica Apostólica Romana), ou seja, qualquer interpretação de outra denominação pode ser contestada e não tem valor. Esta é exatamente a visão medieval consoante a história europeia, quando a população em geral não tinha acesso à Bíblia e, sim, apenas o clero (ou seja, os sacerdotes católicos). Consequentemente, algumas tradições não amparadas pelos escritos bíblicos foram definidas como sinal da cruz, oração pelos mortos, etc. Sendo assim, não podemos concluir que o método histórico-crítico é aceito pelo Vaticano. Pode até ser dito que é aceito, mas com essa incrível reserva de que, em última instância, o que vai prevalecer será a palavra da "Igreja" acerca da interpretação.Por outro lado, indo à Bíblia mesmo, ou seja, nos remetendo à fonte da inspiração divina, há algo interessante sobre esse assunto. Em uma conversa com os líderes judeus dos primeiros séculos, Jesus, conforme Mateus capítulo 15, reprovou a preferência pela tradição em lugar da Palavra revelada. Diz Cristo, no versículo 6, que "invalidastes a Palavra de Deus, por causa da vossa tradição". Fica para todos nós a análise disso.
Sábado, Outubro 24, 2009
Papa abre as portas para os anglicanos
Na terça-feira passada, Bento XVI ofereceu condições especialíssimas para atrair os anglicanos descontentes para o catolicismo. Comunidades, paróquias e até dioceses anglicanas podem se converter sem que seja preciso sacrificar suas tradições. Até padres casados serão tolerados,
A exceção oferecida em decreto papal é similar à concedida às igrejas católicas orientais. Sua hierarquia reconhece a autoridade do papa, mas segue seus próprios ritos. O arcebispo de Cantuária, Rowan Willians, chefe da Igreja da Inglaterra, declarou-se "chocado" com a oferta da Santa Sé. Mas é sobre ele que cai o furor dos fiéis. Como líder da ala liberal da Igreja, ele é um dos responsáveis pela cisma. O racha atual entre os anglicanos é tão profundo que foram nomearam dois bispos cuja única função é a de mediar conflitos entre liberais e tradicionalistas.
Na Inglaterra, a oposição ao papa é uma questão de estado. Os membros da família real sequer podem casar com católicos sem perder o direito ao trono. Tudo isso tem raízes profundas. O rompimento com Roma ocorreu no reinado de Henrique VIII depois que o papa Clemente VII recusou-se a anular seu casamento com Catarina de Aragão. Depois de rejeitar a autoridade papal, o rei pôde se casar com seu grande amor, Ana Bolena, que mais tarde ele mandaria decapitar.
No princípio as mudanças foram pequenas, pois Henrique VIII pretendia que a Igreja da Inglaterra continuasse católica, ainda que separada de Roma. Mais tarde, a igreja aderiu à reforma protestante e o país passou por períodos sangrentos, com perseguições religiosas até que o predomínio protestante ficasse bem assentado. O retorno dos anglicanos ao seio da Igreja Católica tem o sabor de uma vitória tardia sobre a reforma protestante.
Nota: O que está por trás desta ação do Vaticano, já que a ruptura com os anglicanos é antiga? Certamente não é uma questão de princípios bíblicos e nem de dogmas exclusivamente católicos, porque conforme a, própria reportagem, as tradições anglicanas poderão ser mantidos e até padres casados serão aceitos. O que me chama a atenção é que realmente esta unificação em torno do Vaticano não passa por ensinamentos da Bíblia Sagrada, ou seja, não é uma união em torno dos ideais deixados por Deus em Sua Palavra. É a constituição de um grupo mais forte politicamente a fim de tornar mais abrangente e significativa a atuação do Vaticano junto a governos onde sua atuação tem sido mais fraca. Isso me lembra o antigo Israel, na época dos reis de Judá e Jerusalém, quando Deus pedi que a única aliança fosse feita com Ele e não com homens a fim de se aumentar o poderio militar, político, territorial. Mas não parece ser o foco mais em relação às grandes religiões cristãs hoje.Quarta-feira, Outubro 14, 2009
Lei de mídia na Argentina privilegia Igreja Católica
O Conselho Nacional Cristão Evangélico (CNCE) anunciou ontem que tinha recorrido à Justiça, pois a lei provoca "uma dolorosa e inexplicável discriminação religiosa". "(A lei) não possui sustentação constitucional e está em oposição aos tratados de direitos humanos assinados pela Argentina", afirmou o CNCE em nota. O Conselho sustenta que a nova legislação "faz de nossas comunidades e seus membros cidadãos segunda categoria".
Apesar de privilegiar a Igreja Católica, o ex-presidente Néstor Kirchner e sua mulher, Cristina, não possuem boas relações com o Vaticano. O papa Bento XVI criticou, poucos meses atrás, o crescimento da pobreza na Argentina, e o clero em Buenos Aires é crítico da política econômica do governo Kirchner.
Segundo analistas políticos, com o privilégio concedido aos católicos, os Kirchners pretendem reduzir a tensão com o Vaticano, com quem estiveram em permanente confronto desde 2003. Desde sua posse, em dezembro de 2007, a presidente Cristina tenta conseguir, sem sucesso, uma audiência com Bento XVI. Durante os recentes debates entre governo e oposição que antecederam a aprovação da lei de mídia, o clero argentino optou por não se posicionar.
Nota: Lei que visivelmente coloca em xeque a liberdade de expressão religiosa. Possivelmente seja uma manobra política do governo argentino para melhorar sua relação com o Vaticano. Prova de que estado e igreja, nesse caso, querem andar juntos por puros interesses.
Domingo, Outubro 11, 2009
Rua em São Paulo se especializa para atender evangélicos
Revista Veja, Semana de 11 de outubro de 2009.Ruas especializadas são características da cidade de São Paulo. Há uma rua das noivas, uma de madeiras, outra de motores, a dos eletrônicos, a dos lustres, a dos joalheiros, a dos instrumentos musicais e, agora, como sinal dos tempos, a dos evangélicos, ironicamente localizada às costas da Catedral da Sé. Em pouco mais de duas quadras, há galerias, lojas e camelôs vendendo artigos de que fiéis e pastores possam precisar – desde bíblias até envelopes para a coleta do dízimo. Pode-se encontrar ali o mobiliário necessário para montar um templo. Esse é, por sinal, um, digamos, segmento de mercado em ampla expansão, com a abertura de 10 000 templos evangélicos por ano.
Durante a semana, o maior movimento na rua é de lojistas de todo o país em busca de mercadorias. No sábado é a vez do comprador individual. "Vim com a família comprar peças de vestuário para o novo grupo de jovens da igreja", diz o paulistano Valteci Figueiredo dos Santos, que não resistiu à pechincha de três gravatas por 10 reais. O burburinho na Conde de Sarzedas é similar ao das vias de comércio popular das proximidades. A peculiaridade é que nela os camelôs e as barraquinhas de comida dividem as calçadas com pregadores e cantores gospel. Naturalmente, os ambulantes vendem produtos pirateados, só que autenticamente evangélicos. Por enquanto, o negócio é próspero para todos. "A pirataria ainda não conseguiu nos incomodar", diz Renato Fleischner, editor-chefe da Editora Mundo Cristão, com estimativa de venda de 1,5 milhão de livros neste ano.
Na década de 90, as variadas denominações evangélicas se multiplicaram no Brasil. O número de fiéis cresceu quatro vezes acima da média da população brasileira. Ao contrário da maioria católica, discreta no que diz respeito a compras ligadas à religião, os evangélicos se revelaram consumidores vorazes. O mercado de produtos específicos para eles é estimado em 1 bilhão de reais, o dobro de quatro anos atrás. O apetite consumista se deve bastante aos pentecostais (confissões mais antigas e severas em questões de vestuário e comportamento), como a Assembleia de Deus, com 15 milhões de fiéis, e aos neopentecostais (mais recentes e liberais em relação ao comportamento do fiel), como a Universal do Reino de Deus, com 8 milhões de seguidores.
Sete anos atrás, a primeira edição da ExpoCristã, a maior feira de negócios evangélicos da América Latina, em São Paulo, reuniu 58 expositores e recebeu 4 500 visitantes. Neste ano, o número de expositores chegou a 315 e o de visitantes passou dos 150 000. Há também versões mais modestas montadas em Belo Horizonte e no Rio de Janeiro. Estima-se que três de cada dez CDs vendidos no país sejam de música gospel. Um dos discos de Aline Barros, a mais popular cantora evangélica, vendeu mais de 3 milhões de CDs e DVDs. Nas prateleiras da Ebenezer, a maior loja da rua, pode-se escolher qualquer gênero musical – pagode, rap, heavy metal, todos devidamente evangélicos.
Na Brother Simion, é difícil conciliar a imagem tradicional da religião com as jaquetas de couro, correntes de metal e bolsas de padrão oncinha do estilo roqueiro. Quem entra é recebido por uma vendedora de cabelos vermelhos. "Boa tarde, irmã, olha que linda essa mochila que acabou de chegar", diz Juliana Cristina Melo, 20 anos, na loja há sete meses. Ela é uma vendedora elétrica, atenta a cada freguês que entra. "Foi Jesus quem me deu o dom da comunicação fácil", explica Juliana. Ela divide o atendimento com o dono da loja, Brother Simion. Cinquentão, com uma carreira de sucesso no rock gospel nacional, ele gosta de contar seu momento de "iluminação". "Fui morar na Holanda e me envolvi com drogas", relata. "Então conheci Jesus e voltei meu rock para a música gospel. Hoje, minha missão é ‘descaretizar’ a religião."
Pelo menos uma dezena de pregadores tenta ao mesmo tempo atrair novos fiéis e vender alguma coisa na Conde de Sarzedas. Alguns pregam aos gritos, outros tocam música com caixas de som em alto volume. Israel Dias, 38 anos, é cantor gospel há quatro e disputa todos os dias um espaço na rua para propagandear seus dois CDs – ambos de produção independente. Ele sai de Santo Amaro, no sul da cidade, às 8 da manhã e caça fregueses na rua por cinco a seis horas. No meio do dia faz uma pausa para se perfumar e arrumar o terno impecável. "É isso que cativa os clientes", diz Israel, que fatura de 150 a 200 reais por dia. Dá uma boa renda mensal. Deus seja louvado!
Nota: O problema é quando Jesus ou a religião se transformam em moda, produto para consumo rápido e, fatalmente, descarte posterior. Além disso, a mistura de rock com gospel pode ser interessante sob o ponto de vista comercial. Claro que existem ávidos por dinheiro e a classe evangélica é um nicho a ser explorado pelas ações de marketing. Talvez isso esteja longe, no entanto, da vida simples de Jesus Cristo tal como descrita nos evangelhos e de Sua missão que, conforme Lucas 19:10, "era a de buscar e salvar o perdido". Aproveita-se para jovens terem contato com a religião, mas é essa religião mesmo a ensinada por Cristo?



















