Revista Veja, Semana de 2 de agosto de 2009.
Igual, mas diferente. No sempre movimentado e competitivo mundo dos casamentos, esse é hoje em dia o lema de muitos casais. Eles querem uma cerimônia, claro, que tenha votos, troca de aliança e beijo, evidentemente, mas que não seja igualzinha à que todo mundo já conhece. Está criado o ambiente perfeito para a atuação do celebrante, uma figura que, sem ser juiz, padre, pastor ou rabino, formata e comanda cerimônias "personalizadas". O bom celebrante paira acima de crenças e age como se conhecesse o casal de longa data, pontuando suas falas com histórias dos dois. Pode ser médico, professor de ioga, mestre esotérico, radialista, amigão do noivo ou nenhuma das alternativas anteriores, desde que ofereça postura, boa fala e um ritual convincente. Inicialmente requisitado nas festas de quem já caminhava para a segunda união (ou terceira, ou quarta) e por casais homossexuais, os celebrantes passaram a ocupar mais espaço na cena casamenteira tradicional do ano passado para cá. Segundo os mais requisitados organizadores de festas do Rio de Janeiro e de São Paulo, a cada dez casamentos que montam, hoje pelo menos dois são nesse formato.
No leque de opções disponíveis, há celebrantes que se especializaram em nichos, como a carioca Pérola Kaminietz, que conduz cerimônias em que um é judeu e o outro não. De currículo eclético – fonoaudióloga, terapeuta familiar, professora de hebraico e mãe de um ex-participante do Big Brother –, Pérola faz em média dois casamentos por mês. Cobra cerca de 4 000 reais por cerimônia, que prepara como se fosse "criar um enredo de filme". O advogado carioca Marcel Britz, 31 anos, judeu, convocou seus serviços em novembro para se casar com a funcionária pública Nathália Diniz, espírita. "Queria que meu casamento tivesse alguma referência à cultura judaica. Pérola contou muitas coisas da nossa intimidade e tocou até o hino do Flamengo, meu time", diz Britz, que se casou sob a chupá, a tradicional cabana de tecido usada em cerimônias judaicas, e quebrou o copo no final. Na comunidade zen, bacana é contratar os serviços de Marcia de Luca, professora de ioga em São Paulo e madrasta da primeira-dama da França, Carla Bruni. Requisitadíssima, Marcia escolhe a dedo os clientes, dos quais cobra 6 000 reais, o cachê mais alto do meio. Em julho, no Guarujá, litoral de São Paulo, casou Vivian e o atacante Robinho, que não joga exatamente na tribo esotérica, mas atendeu a uma recomendação da organizadora da festa. Já Marcia desempenha bem em todas as posições: usa roupas indianas estilizadas, tira sons de uma cuba tibetana de cristal, borrifa no ar essência de flor de lótus, salpica pitadas de hinduísmo e ao final saca um apanhador de sonhos, talismã dos índios americanos. "Peço que noivos e convidados coloquem ali sua intenção de felicidade e dou o objeto ao casal. Eu mesma criei essa simbologia", explica.
A necessidade de rituais, tão antiga quanto a humanidade, e o espírito da nova era, em que a religiosidade é uma espécie de bufê, com um pouquinho de cada coisa, impulsionam as novas cerimônias. O casamento do chef francês Claude Troisgros com a produtora Clarisse Sette, no Rio de Janeiro, em março, foi celebrado por Philippe Bandeira de Mello, que reúne os coloridos títulos de psicoterapeuta junguiano e mestre da Arca da Montanha Azul, um grupo multirreligioso criado por ele. Entre os adeptos, os casamentos incluem fogueiras e chás, daquele tipo plenamente legalizado. Na festa de Troisgros, Mello apenas leu um texto falando sobre a plenitude da união entre masculino e feminino. "O que praticamos não é reles mistura, e sim a integração de cultura afro, hinduísmo, xamanismo e cabala, entre outras coisas. Todos nós estamos navegando na mesma arca e sou uma espécie de Noé moderno", filosofa mestre Mello, que não cobra cachê, mas aceita doações. Uma vantagem adicional dos celebrantes alternativos é que os noivos podem estabelecer a duração da cerimônia. "Eu não queria lenga-lenga, queria uma coisa bem objetiva", diz a estilista Roberta Tordin, 30 anos, que em abril se casou com o empresário Aleandro Fortunato, 32, numa fazenda em Itatiba, interior de São Paulo, tendo por celebrante Fredh Hoss. Radialista de profissão, com nome de fábrica de Fred Rodrigues, ele tem oitenta festas agendadas até fevereiro de 2010, cobra 1 500 reais e cobre um amplo espectro confessional. Já fez, por exemplo, uma cerimônia fundindo oferenda de frutas (noiva cigana) com bênção e crucifixo (noivo católico). No de Roberta limitou-se a, como ela pediu, ser breve: preparou uma fala curta baseada na história de vida dos noivos, que aprendeu submetendo-os antes a um questionário escrito. Foi show.
Nota: A frase em que o repórter fala que a religiosidade da nova era é um bufê ilustra exatamente o pensamento pós-moderno sobre crenças. Isso significa dizer que você pode construir sua própria religião ao unir os pedaços do que considera relevante emm cada uma das inúmeras seitas e religiões cristãs ou não cristãs que existem.
É a religião da conveniência, do mosaico criado segundo o gosto de cada um. Ou seja, não há verdades a serem entendidas e vividas. Como li em um livro de um filósofo chamado Richard Rorty, são diversas verdades que as pessoas têm e podem viver conforme bem entendem. Para mim, no entanto, existe uma verdade bíblica a qual me guia e me norteia.
Em relação ao casamento, entendo que é mais uma forma de tornar a celebração religiosa algo banal e comum e fazer com que literalmente qualquer um possa "abençoar" a união matrimonial. Os valores morais e espirituais, nesse caso, são colocados em xeque e o que resta é são " profissionais" que mais se preocupam em agradar os noivos em suas diferenças culturais ou religiosas e não ministros focados em realmente obter o favor de Deus para aquela união.
Celebrantes alternativos "abençoam" enlaces matrimoniais
Felipe Lemos
02/08/2009
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Esta é uma forma de se adaptar os interesses e desejos das pessoas ao que elas sabem ser um costume correto, o casamento. No lugar de se adequarem as regras divinas, muito claras na biblia, adaptam ao seu estilo de vida um ritual sagrado e pessoas interessadas apenas nos caches estão prontas a realizarem esta peça teatral.